O diabetes é uma das doenças sistêmicas que pode complicar o período de gestação. Na população brasileira, a forma gestacional acomete até 7% das grávidas. Assim como na hipertensão arterial, onde existe uma forma exclusiva da gravidez, o diabetes gestacional apresenta características próprias desta fase, provocando distúrbios no metabolismo da mãe e do feto que podem levar a sérias consequências a ambos.
O diabetes é causado por um distúrbio na utilização de glicose pelas células do organismo. De etiologia ainda desconhecida, mas com forte componente genético - indivíduos com história da doença na família têm chance bastante aumentada de desenvolver os sinais e sintomas após os 40 anos de idade.
Existem 3 formas principais de diabetes:
O diabetes tipo I geralmente surge na infância ou adolescência, e requer utilização de insulinoterapia subcutânea como tratamento. O diabetes tipo II é controlado com dieta, atividade física e hipoglicemiantes orais, sem necessidade de uso de insulina. O diabetes gestacional refere-se a qualquer forma de diabetes diagnosticado durante a gravidez.
Na gravidez, ocorre uma resistência bastante aumentada à utilização de glicose pelo organismo materno. Esta resistência é provocada por hormônios produzidos na placenta (hormônio lactogênio placentário, progesterona, glucagon, prolactina), e tem a função de possibilitar que a glicose permaneça elevada no sangue materno, facilitando seu transporte e difusão pela placenta até o feto. Estes hormônios dificultam a captação e a utilização celular de glicose promovida pela insulina, o hormônio responsável por "diminuir" a glicose no sangue. Este efeito é mais intenso a partir da metade da gestação, quando o feto adquire um forte ritmo de crescimento e demanda uma quantidade elevada de proteínas, carboidratos e elementos minerais para sua utilização.
Apesar de conhecermos o diabetes como elevação do açúcar no sangue, a alteração no metabolismo de insulina agride também o metabolismo de gorduras e proteínas no organismo.
Quais as consequências do diabetes durante a gestação?
Gestantes com diagnóstico de diabetes anterior à gestação, ou que receberam este diagnóstico no início do pré-natal, têm risco aumentado de problemas relacionados ao seu metabolismo e ao crescimento do bebê. O excesso de glicose no sangue, sem utilização adequada pelas células, faz com elas busquem outra fonte alternativa de produção de energia, de forma a sustentar suas funções vitais. A partir deste momento, elas entram em uma fase chamada de metabolismo anaeróbio.
Nesse processo, as células utilizam fontes de energia menos eficazes, e que deixam "detritos" no sangue. Estes detritos são conhecidos como cetonas, e uma sequência complexa de reações químicas leva o organismo a um quadro de acidose, a cetoacidose diabética, que pode inclusive provocar a morte. Esta acidose representa uma queda importante do pH no sangue, que deve manter-se em níveis bastante restritos para garantir o adequado funcionamento dos diversos órgãos e sistemas.
E o bebê pode ser afetado pela doença?
Durante os períodos de elevação da glicose no sangue materno, há uma passagem bastante elevada da substância para o feto, através da placenta. O organismo fetal tem dificuldade em lidar com um ambiente tão aumentado de glicose, e produz mais insulina no pâncreas, de forma a normalizar seus níveis sanguíneos.
A glicose não "some" simplesmente no organismo, ela é levada pela insulina para o interior das células que têm receptores na sua superfície. Estas células são representadas principalmente pelo tecido adiposo, fígado, daí o processo de obesidade que ocorre nas pessoas com ingestão elevada de calorias. No feto, este tecido adiposo concentra-se no abdome e na região cervical, próximo aos ombros.
Com o aumento dos depósitos de glicose, o feto torna-se "gordo". O agravamento deste acúmulo provoca alterações no fígado e coração, que têm suas funções comprometidas. Para complicar, gestantes que mantém níveis de glicemia elevados por grandes períodos, obrigam o feto a manter grande produção de insulina pancreática, que não pode ser interrompida rapidamente. Se o organismo da mãe entra em hipoglicemia, a quantidade de glicose no sangue fetal também cai, sem redução da quantidade de insulina no seu sangue. Ele entra, secundariamente, em um grave quadro de hipoglicemia. Após um período variável de manutenção destas condições adversas, geralmente semanas, o feto pode, inclusive, evoluir para óbito.
Este processo pode ser detectado na gravidez?
Toda gestante deve receber um teste de screening para diabetes gestacional. O método mais empregado é a dosagem de glicemia plasmática na primeira consulta pré-natal e um teste de sobrecarga de glicose por volta do 6º mês, o chamado teste de O’ Sullivan (GPD). Ele representa a medida da glicemia após a ingestão de líquido com grande quantidade calórica (dextrosol). Gestantes com resultado normal nos dois testes apresentam baixíssima possibilidade de desenvolver diabetes posteriormente na gravidez.
Se um destes testes está anormal, um teste de confirmação deve ser realizado, variando conforme o protocolo do serviço médico. Na primeira consulta, o diagnóstico é realizado com duas glicemias superiores a 105 mg%. No GPD, outro teste de sobrecarga é recomendado, a curva glicêmica, medida em jejum, uma, duas e três horas após a ingestão de 100 mg de dextrosol.
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