Faça uma lista das 8 mulheres que são mais próximas a você. Provavelmente, no mínimo duas delas estão infectadas pelo Papilomavírus Humano, o HPV. Os dados são do Instituto Nacional do Câncer (Inca): no Brasil, 25% das mulheres, principalmente as mais jovens, são infectadas por um ou mais tipos do vírus. E mais: hoje, sabe-se que o HPV é o responsável por 99% dos casos de câncer de colo do útero - doença que mata anualmente 4 mil brasileiras.

Apesar dos índices um tanto alarmantes, nada de pânico. Nem todas as pessoas que entram em contato com o HPV desenvolvem qualquer espécie de doença, pois na maioria dos casos, o sistema imunológico humano consegue combater o vírus e eliminá-lo totalmente. Dentre o total de mulheres infectadas, estima-se que apenas 3% desenvolvem câncer. E não porque não haja cura - mas simplesmente porque muitas pacientes não têm o hábito de ir ao ginecologista, nem fazer exames de rotina.

Este foi o caso de Raquel*, estudante de 20 anos, moradora da Rocinha. Ela iniciou sua vida sexual aos 15 anos, depois de 8 meses com o primeiro namorado - um menino da mesma idade, que não era mais virgem. "A gente queria que fosse perfeito, romântico, como eu sonhava. Então planejamos tudo com calma. Ele não sabia que tinha HPV porque não tinha nenhum sintoma. E eu peguei com ele, na minha primeira vez", conta ela.

Eles ficaram juntos por mais quatro meses. Neste meio tempo, Raquel* já sentia alterações na vagina: um corrimento que não parava e muita coceira. Assustada e com medo, ela pediu à mãe para ir ao médico. Foi apenas no consultório que a mãe descobriu que Raquel* não era mais virgem. "Ela não ficou muito preocupada com a doença. O problema para ela era saber se eu estava tomando pílula, porque não quer que eu tenha filhos jovem. Mas o médico só passou um creme, e ninguém sabia que já era o HPV agindo no meu corpo".

O caso de Raquel* joga por terra o preconceito de que o portador de uma Doença Sexualmente Transmissível tenha necessariamente um comportamento promíscuo. Até mesmo um jovem que esteja na primeira relação sexual, mantendo um relacionamento estável, com um parceiro fixo, pode contrair o vírus. "Tudo depende do sistema imunológico da pessoa, das defesas do próprio organismo", afirma o Dr. Maurício Costa, Mestre e Doutor em Ginecologia pela UFRJ.


O que é o HPV?

O Papiloma é um vírus transmitido principalmente através de relações sexuais, que atinge mais a área genital de homens e mulheres, apesar de se desenvolver com mais freqüência no sexo feminino. Universal, manifesta-se em negros e brancos, americanos e europeus, brasileiros e chineses, ricos e pobres, sem distinções.

"O HPV é um vírus muito antigo e sua presença realmente vem aumentando nos últimos anos. Isto começou com a revolução sexual. As pessoas ganharam liberdade, mas deixaram de se cuidar", diz o Dr. Maurício.

Conhecidas desde a antigüidade, as infecções genitais pelo HPV chamaram atenção a partir da década de 80, quando se descobriu a relação das lesões com o câncer de colo do útero. Até o momento, mais de 100 subtipos do vírus já foram identificados. O mais comum é o que atinge a região genital. Outros subtipos causam apenas verrugas comuns no corpo. Em casos mais raros, o vírus já foi detectado em locais como: olhos, boca, faringe, vias respiratórias, ânus, reto e uretra.
Ainda não existe vacina contra o HPV, ou seja, não há cura para a contaminação pelo vírus. Mas existem inúmeras formas de tratamento e acompanhamento dos sintomas, e quem se cuida pode conviver pacificamente com o Papiloma, levando uma vida absolutamente normal.


Mal Escondido

Vale ficar atenta, pois uma das características do HPV é que ele pode ficar instalado no corpo por muito tempo sem se manifestar, entrando em ação em determinadas situações, como na gravidez ou numa fase de estresse, quando a defesa do organismo fica abalada.

Homens e mulheres tanto podem sentir uma leve coceira, ter dor durante a relação sexual ou notar o aparecimento de uma secreção, mas é comum que não se note qualquer alteração. Isto significa que qualquer pessoa pode estar infectada pelo vírus, sem saber. E se esta pessoa transar sem camisinha, fatalmente o parceiro será infectado pelo HPV. "O vírus é transmitido mesmo fora da crise, ou seja, mesmo quando está incubado. E este pode ser um dos motivos deste intenso alastramento do HPV", diz o Dr. Maurício.

Além disso, muitas vezes os sintomas do HPV são tratados não como conseqüências da ação do vírus, mas como uma doença secundária. Por exemplo: por causa da ação do HPV, uma paciente apresenta uma inflamação no colo do útero. Existem médicos que não associam uma coisa à outra e acabam tratando apenas a infecção. E o HPV continua lá, passando despercebido, e agindo livremente.

Portanto, a melhor forma de tratamento é a informação. O ideal é que você se previna contra o vírus, mantendo em dia os cuidados de higiene, reduzindo o número de parceiros sexuais e, principalmente, usando sempre preservativos, mesmo em relações estáveis. É fundamental também que você faça ao menos um preventivo por ano.


HPV na gravidez

Em raras situações, foi encontrada a presença do HPV no líquido amniótico (líquido que envolve o feto dentro do útero). A secretária Márcia*, de 24 anos, também moradora da Rocinha, só descobriu a presença do vírus ao fazer exames de rotina, durante a gravidez do filho João*, de 2 anos e 8 meses. "Fiquei apavorada. Meu maior medo era de aquilo causar algum problema para o meu bebê. E da doença se transformar num câncer, pois o meu caso já estava um pouco avançado", conta.

Hoje, João* é um menino esperto e saudável. A presença do vírus não causou nenhum problema, apenas tornou-se ainda mais necessário um bom acompanhamento médico pré-natal. "A presença do HPV durante a gravidez não implica em má formação do feto, nem que a mãe não poderá optar pelo parto normal. Não se deve especular, cada caso é um caso", diz o Dr. Maurício.

A experiência de Raquel* foi ainda pior. Ao descobrir que era portadora do vírus, com apenas 17 anos, através de um preventivo, ela teve que ouvir absurdos de uma médica inconseqüente, ignorante e preconceituosa. "Ela me disse que quando eu quisesse criar uma família eu não ia poder, por causa desse problema que eu tinha arranjado na rua. Que eu não poderia ter filhos e que a culpa de tudo era minha." Isto é uma mentira: o HPV não causa infertilidade. E qualquer mulher, portadora ou não do HPV, pode e deve ser amada, respeitada e ter uma vida absolutamente normal.


Prevenção e tratamento

O indício mais claro da presença do HPV é o aparecimento de verrugas em áreas como ânus, pênis, vulva e vagina. Se você perceber algo parecido, procure um ginecologista. Se as verrugas aparecerem no órgão do seu parceiro, mande-o direto para o consultório de um andrologista, que é o médico especializado nos órgãos sexuais masculinos, ou de um urologista, especialista em vias urinárias. E lembre-se: é fundamental que o seu parceiro seja informado sobre o vírus. Se apenas você se tratar, poderá ser reinfectada por ele, e vice-versa. O ideal é que vocês dois se informem sobre o assunto e sigam o tratamento ao mesmo tempo.

O diagnóstico pode ser feito através de um preventivo comum, conhecido como Papanicolau: o médico retira uma amostra  de material do colo do útero e uma pequena quantidade da secreção da vagina da paciente e coloca-os numa lâmina de vidro, que é enviada para um laboratório para análise ao microscópio. O Papanicolau deve ser realizado antes da menstruação (no mínimo uma semana antes) e deve-se evitar o uso de cremes vaginais, duchas e relações sexuais pelo menos três dias antes do exame.

Se o resultado for positivo para a presença do vírus, não se desespere. Nem todos os tipos de HPV podem se transformar em câncer. Por isso, os Papilomavírus são classificados em tipos de baixo e de alto risco. Outros fatores que podem aumentar o potencial de desenvolvimento do câncer de colo de útero em mulheres já infectadas pelo HPV são o uso indiscriminado de pílulas anticoncepcionais, o fumo e infecções por outras doenças sexualmente transmissíveis.


Atendimento Público

Mesmo sabendo que é fundamental que os serviços de saúde orientem sobre o que é e qual a importância do exame preventivo - dados do Inca comprovam que a realização periódica do exame permite reduzir em 70% a mortalidade por câncer do colo do útero - o Dr. Afrânio Coelho de Oliveira, médico da Gerência de Câncer da Secretaria Municipal de Saúde, afirma que não há motivo para um programa de saúde pública específico sobre o HPV.

Segundo Oliveira, as mulheres devem procurar os serviços prestados pelo programa federal Viva Mulher existente nos postos médicos, que oferecem atendimento ginecológico. "Nestas unidades, as mulheres têm o direito de fazer o Papanicolau gratuitamente. Por meio deste exame, já é possível diagnosticar se a paciente apresenta HPV e, assim, dar início ao tratamento", afirma.
De acordo com o site da secretaria, a rede pública municipal dispõe de 71 unidades de saúde na cidade do Rio que possuem atendimento ginecológico, capazes de fazer gratuitamente o exame. Para informações sobre o vírus, o doutor recomenda que as mulheres busquem orientação nos postos médicos, onde há o Programa da Mulher, desenvolvido pela secretaria. O objetivo do projeto é informar às mulheres sobre como evitar as diferentes Doenças Sexualmente Transmissíveis. “O esclarecimento sobre o HPV está incluído neste programa”, justifica Oliveira.

"Só se isto está acontecendo agora" - diz Raquel* - "O Viva Mulher só fala sobre AIDS, só tem informação sobre isso. E eu fui ao posto de saúde da Gávea e o lugar estava todo esculhambado, todo sujo."

Independente das dificuldades, se empenhe em realizar o Papanicolau anualmente. A saúde é o bem mais importante que você tem, e assistência médica é um direito de todos os brasileiros -garantido inclusive pela Constituição Federal.


* Para manter a identidade das entrevistadas em sigilo, os nomes utilizados na matéria são fictícios.
** Colaborou: Jana Tabak.

Fonte: www.belezapura.org.br
Matéria Publicada em 30/05/2003

 
 

 

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