A decisão de amamentar é um processo que começa a ser pensado no momento em que se tem notícia da gravidez e é dependente de uma série de fatores, os quais podem influenciar positiva ou negativamente. A cultura familiar, as condições sócio-econômicas, a motivação materna, nível de conhecimento específico da mãe, apoio familiar, profissional e social, influência de terceiros, são alguns fatores que desempenham papéis de destaque na elaboração dos significados individuais sobre o aleitamento natural. Cada mulher traduz este ato de forma diferente, baseado em experiências anteriores e em perspectivas futuras, que a ajudarão optar entre o leite materno ou artificial como alimento para o seu bebê.
Bebês que recebem leite de vaca (que está presente em muitas fórmulas infantis) antes do primeiro mês de vida têm mais chances de desenvolver sintomatologia de alergias. As alergias alimentares têm sido alvo de produções científicas nos últimos anos, por ter seus mecanismos pouco conhecidos e causar efeitos devastadores na qualidade de vida da familia. As manifestações dependem da interação de agentes genéticos e ambientais, o que justifica a essencialidade de se identificar o quanto antes as crianças que apresentem riscos aumentados. Além disso, alguns fatores contribuem negativamente, a exemplo da introdução precoce de alimentos alergênicos antes do 4º mês de vida, o que aumenta as chances de desenvolver atopia em crianças predispostas (FERGUSSON, HORWOOD apud FERREIRA et al, 2006).
A alergia ao leite de vaca (ALV) é uma sensibilização do organismo, e os sintomas alérgicos começam logo após a sua introdução, em substituição do leite materno. Entretanto, a alergia pode acontecer mesmo durante a amamentação, uma vez que o leite de vaca consumido pela nutriz tem suas proteínas passadas para o lactente através do aleitamento materno. Até mesmo uma pequena quantidade de leite de vaca ou derivados ingeridos pela mamãe (através de biscoitos, pães, alimentos industrializados) pode ser transferido ao lactente que mama no peito, sendo suficiente para sensibilizar seu organismo.
As pesquisas mostram que os principais sintomas são:
• Chiado;
• Tosse;
• Rinite – coceira no nariz, espirros constantes, nariz escorrendo;
• Afecções dermatológicas – manchas avermelhadas na pele, bochechas sempre rosadas, palma das mãos vermelhas;
• Acometimento gastrintestinal e otológico – náusea, vômitos, diarréia, sangue nas fezes;
Sem dúvida, existe um amplo arrolamento entre a exposição precoce à proteína do leite de vaca (LV) e o desencadear da alergia alimentar, principalmente se o lactente tiver predisposição para atopia. O pouco conhecimento sobre a etiologia (causa) e a não especificidade dos sinais e sintomas (tem sintomas parecidos com os de outras doenças) criam dificuldades para a detecção da ALV. O diagnóstico errado pode resultar em somatização, além de prejudicar a criança e a família, pois a eliminação prolongada do leite de vaca da dieta pode sensibilizar o organismo e levá-lo a reagir quando houver sua reintrodução.
A relevância da amamentação no quesito proteção contra a alergia ao leite de vaca é considerada pela grande maioria dos pesquisadores. O uso abusivo deste leite em lugar do leite humano levou ao aumento da incidência desta doença, que é exclusiva dos lactentes, tem início nos primeiros meses de vida e pode vir a desaparecer por volta do quarto ano de vida.
Diante destes dados fica evidente que quanto maior é o tempo de aleitamento natural menores são as chances de desencadeamento da ALV, além de todas as outras vantagens para o binômio mãe-filho. Se o bebê for diagnosticado com esta condição alérgica saiba que o Brasil é um dos poucos países do mundo a oferecer, aos usuários do SUS, tratamento específico com fórmulas de alto custo, algumas produzidas na Alemanha.
Amamentar é proteção que dura a vida toda!
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Matéria cedida gentilmente pela nossa colaboradora, Enfª Grasielly Mariano
Consultora e Pesquisadora em Aleitamento Materno - COREN 024.093
A Enfª Grasielly é membro do Núcleo de Ensino e Pesquisa em ALeitamento Materno da Escola de Enfermagem da USP, autora de mais de 20 artigos científicos sobre amamentação e relactação e palestrante em congressos nacionais e internacionais. Na Lactare PromoPrevent atua como consultora em aleitamento materno e gerente de projetos para grandes corporações empregadoras de mulheres, elaborando e gerindo atividades de promoção de saúde e prevenção de doenças à população feminina.
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Matéria publicada em 28 de março de 2011 |
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